Desproporcional: pesquisa que coloca Pazolini na frente concentra entrevistas em Vitória e Vila Velha
A pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quinta-feira (3) coloca Lorenzo Pazolini (Republicanos) na liderança da disputa pelo Governo do Espírito Santo, com 41% das intenções de voto, 12,3 pontos percentuais à frente de Ricardo Ferraço (MDB), que aparece com 28,7%.
O levantamento foi realizado entre os dias 26 e 31 de agosto e ouviu 1.194 pessoas, segundo o relatório detalhado divulgado pelo instituto. No cenário estimulado, Helder Salomão (PT) aparece com 18,4%, Breno Barcelos (Missão) tem 6,8% e Rafael Demuner (UP), 0,3%. Brancos e nulos somam 0,9%, enquanto 3,9% não souberam responder.
No segundo turno, Pazolini também aparece à frente de Ferraço, com 46% contra 39,2%. A diferença, porém, cai para 6,8 pontos percentuais. Brancos e nulos representam 8% e 6,8% dos entrevistados estão indecisos.
Apesar dos números, a distribuição territorial da amostra chama atenção pela concentração de entrevistas na Grande Vitória, principalmente em Vitória e Vila Velha.
A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número ES-00206/2026. No sistema PesqEle, constam inicialmente 1.200 entrevistados, margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança estimado em 95%. O relatório detalhado da AtlasIntel, porém, apresenta 1.194 respondentes.
A diferença é de seis entrevistas. Embora represente apenas 0,5% do levantamento, o instituto precisa esclarecer se esses questionários foram descartados, quais critérios foram utilizados para a exclusão e sobre qual número de entrevistas a margem de erro foi calculada.
Vitória recebeu mais que o dobro do peso eleitoral
A maior discrepância aparece em Vitória. A capital recebeu 244 das 1.194 entrevistas territorialmente identificadas, o equivalente a 20,44% de toda a amostra.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidados em 1º de setembro, Vitória tinha 266.238 eleitores, correspondentes a 8,90% do eleitorado do Espírito Santo, formado por 2.990.582 eleitores.
Em uma distribuição diretamente proporcional, a capital receberia aproximadamente 106 entrevistas. Foram realizadas 244, uma diferença de cerca de 138 questionários.
Na prática, Vitória teve uma representação aproximadamente 2,3 vezes maior que sua participação no eleitorado estadual.
O dado, isoladamente, não permite afirmar que a pesquisa tenha sido manipulada ou que a concentração tenha beneficiado deliberadamente Pazolini. Também não é possível concluir que a vantagem do candidato desapareceria caso a distribuição territorial fosse diferente.
A questão é outra: o instituto precisa explicar quais pesos foram aplicados posteriormente às entrevistas e de que maneira a concentração territorial foi corrigida no cálculo final.
Isso é especialmente relevante porque Pazolini construiu sua principal base política e administrativa justamente em Vitória.
Vitória e Vila Velha concentram quase 40% da pesquisa
Vila Velha também aparece com peso superior à sua participação no eleitorado estadual. O município recebeu 224 entrevistas, equivalentes a 18,76% da amostra.
A cidade possui 347.208 eleitores, o equivalente a 11,61% do eleitorado capixaba. Pela proporção direta, receberia aproximadamente 139 entrevistas, cerca de 85 a menos do que o número aplicado pela Atlas.
Somadas, Vitória e Vila Velha possuem 20,51% dos eleitores do Espírito Santo. Na pesquisa, entretanto, as duas cidades concentraram 468 entrevistas, ou 39,20% da amostra.
Pela proporção do eleitorado, seriam esperadas aproximadamente 245 entrevistas nos dois municípios. Foram realizadas cerca de 223 a mais.
Serra, maior colégio eleitoral do Estado, teve uma situação diferente. O município possui 361.299 eleitores, correspondentes a 12,08% do eleitorado, e recebeu 147 entrevistas, ou 12,31% da amostra. Nesse caso, a distribuição ficou próxima da proporção eleitoral.
O excesso de entrevistas em Vitória e Vila Velha acabou reduzindo o espaço destinado a outros municípios.
Cariacica, por exemplo, possui 274.227 eleitores, mas recebeu 86 entrevistas. Pela proporção estadual, seriam aproximadamente 110.
Linhares teria cerca de 49 entrevistas e recebeu 34. Aracruz teria aproximadamente 30 e ficou com 15. Viana, com 54.416 eleitores, teria direito a cerca de 22 entrevistas em uma divisão diretamente proporcional, mas recebeu apenas 10.
Grande Vitória responde por quase 60% da amostra
A concentração fica ainda mais evidente quando os cinco principais municípios da Grande Vitória são analisados em conjunto.
Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana somam 1.303.388 eleitores, equivalentes a 43,58% do eleitorado estadual.
Na pesquisa AtlasIntel, os cinco municípios receberam 711 entrevistas, ou 59,55% da amostra.
Em uma distribuição diretamente proporcional, seriam esperadas aproximadamente 520 entrevistas. A diferença chega a cerca de 191 questionários.
Isso significa que o restante do Espírito Santo, responsável por 56,42% do eleitorado, respondeu por apenas 40,45% das entrevistas.
Uma concentração desse tipo pode aumentar a influência das percepções políticas predominantes na Região Metropolitana e diminuir a participação relativa de eleitores do interior.
Mais uma vez, porém, a distribuição bruta não é suficiente para concluir que houve erro na pesquisa. Institutos podem utilizar diferentes modelos de amostragem e aplicar pesos posteriormente. O ponto central é saber se isso ocorreu e quais foram os critérios utilizados.
Diferenças aparecem também no interior
As discrepâncias não se limitam à Grande Vitória.
Viana, por exemplo, possui 54.416 eleitores e recebeu apenas 10 entrevistas. Piúma, com 17.376 eleitores, teve 11.
Em uma distribuição proporcional, Viana receberia aproximadamente 22 entrevistas e Piúma, sete.
Outros municípios também ficaram com poucas entrevistas. Sooretama, que possui 21.002 eleitores, teve apenas uma resposta. Afonso Cláudio, com 26.279 eleitores, recebeu duas, enquanto Baixo Guandu, com 24.947, também ficou com duas.
Santa Maria de Jetibá, que possui 31.316 eleitores, apareceu com quatro entrevistas.
Ao todo, a pesquisa identificou entrevistados em 74 dos 78 municípios capixabas. Irupi, Laranja da Terra, Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço não tiveram respostas registradas.
Concentração também aparece nos bairros
Dentro de Vitória e Vila Velha, a amostra apresenta outra concentração.
Em Vitória, Jardim Camburi recebeu 60 entrevistas, Jardim da Penha teve 35 e Praia do Canto, 18. Os três bairros somaram 113 respostas, correspondentes a 46,31% das entrevistas realizadas na capital.
Em Vila Velha, Praia da Costa recebeu 38 entrevistas, Itapuã teve 30 e Praia de Itaparica, 22. Os três bairros reuniram 90 respostas, ou 40,18% da amostra do município.
Somados, esses seis bairros responderam por 203 entrevistas, aproximadamente 17% de todo o levantamento estadual.
O número não permite afirmar que os moradores dessas regiões tenham uma preferência política uniforme. A questão levantada é a concentração de respostas em determinadas áreas dentro de dois municípios que, juntos, já estão sobre-representados na amostra estadual.
Instituto informa quatro critérios de ponderação
No registro da pesquisa, a AtlasIntel informa que utilizou uma amostra aleatória pós-estratificada por algoritmo iterativo. Os critérios de ponderação indicados são sexo, faixa etária, escolaridade e renda familiar.
Não aparece, no material citado, um ajuste territorial específico por município ou região.
É justamente nesse ponto que está uma das principais dúvidas sobre o levantamento. A distribuição bruta mostra que Vitória recebeu uma parcela das entrevistas muito superior à sua participação no eleitorado. Sem a divulgação dos pesos individuais, porém, não é possível saber quanto cada entrevista da capital efetivamente representou no resultado final.
Em uma correção municipal simples, uma entrevista de Vitória precisaria ter peso significativamente menor que uma entrevista de municípios sub-representados. Mas a Atlas pode utilizar um modelo estatístico diferente, combinando diversas características dos entrevistados.
Por isso, os pesos utilizados e o tamanho efetivo da amostra são informações importantes para avaliar a precisão do resultado.
Questionamentos não comprovam favorecimento
A concentração territorial da pesquisa não comprova, por si só, que o levantamento tenha sido elaborado para favorecer Lorenzo Pazolini. Também não permite afirmar que a liderança de 41% esteja incorreta.
O que os dados mostram é uma diferença relevante entre o peso eleitoral de determinados municípios e a quantidade de entrevistas realizadas neles.
Para avaliar o impacto dessa diferença, seria necessário conhecer os pesos aplicados a cada entrevista, os critérios de pós-estratificação, o tamanho efetivo da amostra e os resultados antes e depois da ponderação.
Também é necessário esclarecer a diferença entre as 1.200 entrevistas informadas no registro eleitoral e as 1.194 respostas apresentadas no relatório detalhado.
Enquanto essas informações não forem apresentadas, a pesquisa pode ser utilizada como um retrato das intenções de voto no período em que foi realizada, mas a distribuição territorial da amostra merece atenção e esclarecimentos metodológicos por parte do instituto.





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